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Ninguém está sozinho!

Oi, minhas bisnaguinhas com doce de leite. Suave? Suave. Faz tanto tempo que eu não apareço aqui que nada faz sentido LOL porém, bem-vindos ao mês de prevenção ao suicídio e doenças psicológicas. Esse é o começo do setembro amarelo e dessa vez eu quero fazer tudo com muita seriedade.

Nunca vou dizer para ninguém que ser uma menina gorda é fácil, nem bêbada de cair (o que seria bem impossível) ou alucinando, porque eu entendo que não é fácil. Se olharmos de 10 anos para cá, talvez estar viva em um corpo gordo tenha ficado menos difícil, com o surgimento de mulheres incríveis em posições de destaque ou com as marcas que produzem plus size se tornando mais presentes no cotidiano da menina “normal”. Pessoalmente, fui uma pessoa que mudou muito com essa apresentação do corpo gordo para o mundo e consigo lembrar direitinho a primeira vez que vi uma foto da Tess Holiday, ou quando comprei roupas no mercado (mas eu estava na Flórida, o que deixa as coisas um pouco complicadas), ou quando me falaram sobre modelos plus size: era como se o mundo tivesse aberto uma janela pela qual eu poderia ver um pouco da vida que não tinha acesso, sabe?

Porém, recentemente, isso não é o bastante. Vocês sabiam que o suicídio é quarta maior causa de morte entre os jovens brasileiros? E que em 2017 essa taxa de morte aumentou em 12%? Isso sem contar os índices de gordofobia médica que vão punir sem pena alguma as pessoas que seguem vivas. É um patamar triste. Não vou ser hipócrita e dizer que não há uma higienização da beleza quando ela chega até nós através de grandes mídias. A capa da Cosmopolitan é importante para a representatividade, porém, eu ando me perguntando até onde essa representatividade é ativa na mudança de algo social, porque é triste ler os comentários em qualquer foto de uma mulher gorda que tenha um pouco de fama. É triste.

Há pouco tempo tive uma conversa com uma amiga e falei sobre como as redes sociais tinham deixado o “jogo da beleza” ainda mais difícil para todo mundo. Antes, a gente via uma revista, um comercial na TV e pensava “minha nossa senhora essa mulher é linda demais, como pode isso” mas algo, mesmo que lá no fundo, nos dizia que havia toda uma preparação para aquela mulher ser assim, ela não acordou assim e foi fazer a novela. Aí, agora, enquanto estamos no transporte público, com sono, fome e já irritadas (muitas vezes), aquela colega da faculdade posta a selfie mais bonita que a gente já viu na vida, tomando café da manhã, com o cabelo ajeitada e uma toranja. GENTE, QUEM COME TORANJA, EM NOME DE JESUS? NINGUÉM COME TORANJA. Acho errado a colega postar a selfie? Não, inclusive, posto selfies sempre, incentivo vocês a postarem também, mas isso nos traz a um termo que nunca achei que ia usar na vida real: gate keeping.

Gate keeping é um termo que a gente aprende (ou deveria aprender) enquanto está na faculdade de jornalismo. Normalmente, é o efeito que a edição do jornal/revista ou da mídia em geral tem sobre o que vira notícia de verdade, porém, nos tempos atuais, pode ser considerado a curadoria que fazemos sobre o que da nossa vida pessoal acaba na internet e o que não acaba. E isso, sinceramente, acaba com a nossa cabeça mesmo que involuntariamente. As pessoas, de repente, parecem todas felizes e bonitas o tempo todo, exceto a gente. Se você, lendo esse texto agora, se sente assim, a mamãe bolinho vai te contar uma coisa: eles PROVAVELMENTE também se sentem sozinhos e nem sempre bonitos e bonitas.

Mas eu entendo. Sério, eu te entendo. É complicado ser positiva quando o mundo, abertamente, odeia teu corpo. Quando o mundo diz que você viveria para sempre se fosse magra, se não comesse isso, não comesse aquilo. Quando a sociedade te fala que para ser amada você precisa de quilos a menos, curvas a mais ou que para ser validada pelo mundo você não pode ser quem você é atualmente. EU ENTENDO. E eu, sinceramente, sinto muito. Queria que ninguém tivesse que passar por isso, de coração aberto, queria poder defender e educar o mundo para esse tipo de coisa não acontecer.

E essa parte é para todos os amigos e amigas que estão vendo pessoas passarem por isso: vocês não vão conseguir salvar ninguém sozinhos. Eu sinto muito, mas é verdade. Sim, vocês podem ser o ombro amigo, a fonte da mudança, a proteção que essas pessoas precisam. Inclusive, agradeço todas as minhas amigas e amigos que foram essa base para mim, mas a melhor parte sobre a minha base é que eles fizeram o mais certo: me incentivaram (e incentivam) a buscar ajuda. Ajudem os amigos e amigas de vocês a procurarem ajuda médica, qualquer que seja. Terapia, análise, um bom psiquiatra… Não importa o quanto a gente ame alguém, às vezes, eles vão continuar se sentindo sozinhos e precisando de ajuda. Sabem o que falam sobre pessoas que se afogam e carregam quem foi ajudar junto? Então, é mais ou menos isso, porque, às vezes, não vai importar quão bem a gente saiba nadar porque o desespero é maior. Autopreservação também é uma forma de ajudar, okay? Não é fácil, mas é necessário.

Entrando com o pé na porta no Setembro Amarelo, quero dizer que: ninguém está sozinho, mesmo que pareça que sim. Procurem ajuda, encontrem pessoas em quem vocês confiam. Se vocês precisarem de ajuda imediata, não hesitem em falar com outro adulto (ou com um adulto responsável, caso cês sejam babies ainda). Se a coisa ficar complicada, o CVV (Centro de Valorização da Vida) está sempre disposto a ajudar através do 188.

É um mundo assustador aqui, meus docinhos. Mas a gente vai conseguir mudar, de pouco em pouco. Conto com vocês.

 

see ya, internets.