O valor da mulher gorda

E aí, meus pedacinhos de melancia, suavão? Suavíssimo aqui. Preciso que vocês me acompanhem durante um raciocínio para conseguir explicar como cheguei aqui hoje, escrevendo esse texto. Minha mãe mandou eu lavar a louça e fiz uma playlist de mulheres incríveis cantando sobre a vida delas e a vivência que elas têm para compartilhar. Eu odeio lavar louça, então precisava de ótimas músicas.

Aí vocês sabem aquele momento que a gente começa a dançar na frente da pia como se fosse parte do ballet do Faustão? Com glitter no corpo, naqueles degraus e tal (não sei se o Faustão ainda tem o ballet, faz muito tempo que não assisto tv, mas vocês entenderam), o espírito da militância bateu na minha cara. Escutando Whitney Huston e dançando como se estivesse nos anos 80, eu percebi: a mulher gorda não tem valor na sociedade.

Antes dos paus e pedras, venham comigo e analisem. O padrão de beleza é muito simples e posso listar ele: branca, magra, alta, cabelos longos, lisos, preferencialmente loiros (ou como vi esses dias em um texto que me arrependi de ler, “beijados pelo Sol”. What the fuck é um cabelo beijado pelo Sol??). Qualquer outra característica fora desse padrão não é visto como “beleza clássica”. Enquanto mulher cis branca, entendo que é um passo arriscado generalizar a falta de valor dado a mulher gorda, porém, estou apenas abordando o que li, o que vivi e o que amigas me contaram.

A mulher gorda é tratada na mídia como um ser merecedor de pena, a amiga feia, o alívio cômico, a esperança de uma mudança drástica para se enquadrar nos padrões. Porém, essa disseminação de imagem midiática se infiltrou como uma verdade universal na sociedade e é muito usada como arma em relações interpessoais.

Vou falar especificamente sobre relacionamentos amorosos – comumente sexuais – entre pessoas. O nome da nossa menina gorda vai ser Cíntia (que é como meu irmão e eu chamamos todas as meninas que não sabemos o nome). Cíntia arrumou uma namorada. E os comentários usados para atacar ela são “gorda assim só podia gostar de mulher mesmo”, “melhor gostar de mulher porque nenhum homem vai querer”, “por que toda sapatão é gorda?” e comentários nesse nível. Primeiro: onde essas pessoas vão que só conhecem meninas gordas que gostam de outras meninas? Deve ser um puta baile, SE VOCÊS SOUBEREM, PEÇAM PRA ME CONVIDAR. Adoro um baile. Segundo: assumir que nenhum homem vai gostar de Cíntia só porque ela é gorda objetifica essa mulher e a torna nada além do que um pedaço de carne que só podia ser vendido na xepa, que nem merecia chegar ao balcão. Pra mim, existem poucas coisas tão cruéis quanto desumanizar a existência de outra pessoa.

Mas e se Cíntia arrumasse um namorado? Aqui a coisa muda um pouco. Nossa nenê Cíntia arrumou um namorado bem na moralzinha, ela gosta dele. Só que, se ele é mais magro que ela, a sociedade cruel começa a se perguntar “por que ele está com ela?”, “como ele consegue?” E A QUE EU ACHO MAIS INCRÍVEL: “como será que fazem sexo?”. Bom, eu nem faço sexo e, mesmo assim, sinto pena de quem só sabe fazer de uma maneira. A ideia de que não existe tesão, vontade de fazer sexo, desejo e sensualidade de ambas as partes em um relacionamento é ridícula. Mas é esse tipo de visão que faz meninas gordas passarem a vida sem ficar nuas na frente de maridos, namorados, fazerem sexo casual… Porque elas SABEM que “aquilo” não é para ser visto. A pressão estética ataca o corpo gordo como uma flecha.

Recentemente estava conversando com a minha melhor amiga e comentei que por muito tempo não consegui tocar outras pessoas porque sentia que meu corpo era errado e como isso era uma influência direta da literatura que eu havia consumido quando era mais nova. Os livros de romance falavam sobre meninas com a pele de mármore, sem uma marca, com a barriga lisa, que eram desejadas. E bom, minha pele tem marcas. Então tudo era “errado”. Essa visão não afeta só a mim e eu gostaria de falar pras meninas lendo isso e que se sentem assim: a literatura retratou a mulher errado por séculos. Existe desejo e sensualidade em cada indivíduo humano vivo. Vão lá e seduzam quem vocês quiserem.

E se o relacionamento da Cíntia vai mal? Vai que eles precisam terminar? “Cíntia, não faz isso!”. A preocupação social se divide em duas vertentes: 1) agora ela pode emagrecer e arrumar um namorado melhor ou 2) coitada, gorda e sozinha. Até hoje só passei por um fim de relacionamento (que foi horrível e destruiu toda a pouca autoestima que eu tinha na época) mas algumas pessoas ao meu redor esperavam, realmente, que eu emagrecesse para me sentir melhor. O resultado não foi bem o esperado, na real, bem pior que o esperado em várias áreas.

Pessoalmente, vejo uma mulher gorda em um relacionamento saudável e sinto orgulho dela. Vejo militância nisso. Somos criadas à base de um chicote que nos diz que temos que aceitar toda e qualquer migalha de atenção e pouco respeito que possamos vir a receber de outra pessoa, porque, afinal nunca seremos boas o bastante por sermos gordas. E essa é uma mentira tão descabida que me dá raiva. Meninas, vocês merecem relacionamentos sadios, com amor e respeito mútuos. Meninos, vocês também (ando pesquisando sobre o queer masculino e gordo, em breve apresento o que aprendi). Entendam que não é certo nos dizerem que merecemos menos amor, respeito ou qualquer tipo de afeto por sermos gordas e gordos.

Se vocês ainda não chegaram nesse ponto de se aceitar e ainda estão aprendendo, tudo bem. Um passo de cada vez. Só lembrem que nossos corpos são feitos de uma mistura certa de carbono, oxigênio e água. No fim, somos todas e todos um pouco de química e é nossa decisão se vamos ser boas fórmulas ou combinações medíocres.

Amem outras pessoas mas não esqueçam de se amarem, okay? Qualquer coisa, colem lá no meu insta ou no meu inbox. A gente fecha um baile e vai dar tudo certo.

Volto antes de vocês sentirem.

 

see ya, internets.


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